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Omundo tinha virado fumaça.
Não era a fumaça mansa de fogão a lenha, que sobe reta e avisa que tem gente e café. Era uma parede. Vinha rolando por cima do capim seco na altura de duas vezes um homem, vermelha por dentro, preta por fora, e fazia um barulho que ninguém que ouviu esqueceu: um mastigado imenso, como se a terra estivesse comendo a si mesma.
Dentro dela, marchava um exército de esqueletos.
Iam em quadrado, como manda o manual — mas manual nenhum previu aquilo: os lados do quadrado feitos de homens descalços, fardas em tiras, os canhões puxados no braço porque os bois tinham morrido ou virado jantar. No meio, as padiolas dos doentes balançavam como barcos. A cólera ia junto, marchando sem farda, escolhendo um por um.
Na frente de tudo, onde a fumaça era mais grossa, ia um homem velho de chapéu de couro, magro como taquara seca, os olhos queimando mais que o capim.
— Ali — disse ele, e o braço apontou um rumo que ninguém mais via. — O vau é ali. Me sigam.
Um tenente jovem, que anotava tudo num caderno que protegia do fogo com o próprio corpo, gritou por cima do estrondo:
— Sigam o Guia!
E três mil desgraças em forma de gente viraram para onde apontava o dedo de José Francisco Lopes.
O começo é três anos antes, num tempo em que o rio ainda dividia em silêncio.
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Odia no passo do Apa começava sempre duas vezes.
Primeiro do lado de lá: os galos paraguaios cantavam mais cedo, ou Martim achava que sim, porque o som atravessava a água lisa da madrugada e chegava limpo, sem dono, como tudo o que o rio deixava passar. Depois do lado de cá: os galos brasileiros respondiam, atrasados e ofendidos, e aí sim o mundo acordava inteiro — as duas margens, as duas línguas, os dois países que fingiam ser dois quando todo mundo ali sabia que eram um lugar só cortado por uma faixa d'água verde.
Martim tinha dezesseis anos e a canoa mais bem calafetada do passo. Herdara as duas coisas do pai — a idade que avançava sozinha e a canoa que precisava de cuidado toda semana —, e do pai herdara também o ofício, que era o mais antigo da fronteira: atravessar.
Atravessava gente, galinha, sal, fumo, santo de madeira, notícia, mentira e, de vez em quando, um padre. Cobrava em moeda de dois impérios, em erva quando não havia moeda, em promessa quando não havia erva. O rio Apa não era largo — um homem de fôlego cruzava a nado —, mas rio de fronteira ninguém cruza a nado carregando uma arroba de charque, e por isso o mundo precisava de Martim, e Martim, que Deus o perdoasse, precisava muito pouco do mundo.
— Guri! — gritou a mãe, da porta do rancho. — O mate!
Ele subiu o barranco. Doña Ramona esperava com a guampa numa mão e a bomba na outra, e aquilo era mais do que bebida: era o relógio da casa. O pai de Martim, brasileiro de Miranda, morrera de febre fazia quatro anos; a mãe, paraguaia de Concepción, ficara na margem de cá, porque a margem de cá era onde estava o marido enterrado e o filho vivo, e para Doña Ramona a pátria era isso: os seus mortos e os seus vivos, e o resto era conversa de governo.
Beberam em silêncio, passando a guampa de mão em mão, a água quente rangendo no meio da erva. O sol saiu por cima do lado brasileiro e foi acendendo devagar o lado paraguaio, sem pedir passaporte.
— Hoje tem gado do seu Lopes — disse ela, em guarani. Era a língua de dentro de casa. O português era a língua do barranco, o espanhol a língua da outra margem, e o guarani a língua da verdade.
— Eu sei — respondeu Martim, na mesma língua. — Mandou avisar terça.
— Homem sério, o Lopes.
— Homem rico, mãe.
— Uma coisa não desfaz a outra — disse Doña Ramona, e deu por encerrada a aula do dia.
José Francisco Lopes chegou com o gado quando o sol ia alto, e antes de vê-lo Martim ouviu: o berro arrastado das reses, o estalo curto dos relhos, os assovios dos peões que vinham desde as bandas do Jardim, léguas e léguas de campo que o velho conhecia — diziam — como conhece a palma da própria mão quem já perdeu o medo de olhar para ela.
Não era velho, na verdade. Tinha cinquenta e poucos anos e a idade dos homens de campo, que é outra conta: o corpo seco, o rosto cortado de sol, e uma maneira de estar em cima do cavalo que fazia o cavalo parecer orgulhoso do serviço. Dizem que fazendeiro se conhece pela porteira; Lopes se conhecia pelo modo de chegar — devagar, olhando tudo, cumprimentando o rio antes de cumprimentar as pessoas.
— Martim — disse ele, apeando. — Tá servido o passo?
— Às ordens, seu Lopes. Quantas cabeças?
— Trinta e duas pro lado de lá, negócio com o Ferreira de Bella Vista. E uma encomenda pra voltar. — Ele olhou a água um tempo comprido. — O rio tá manso.
— Tá sempre manso nessa lua.
— Tá manso demais — disse Lopes, e não explicou.
Levaram a tarde inteira na travessia, o gado nadando em levas atrás da canoa-madrinha, os peões gritando nas duas línguas, a bicharada do mato assistindo. No meio do serviço, sentados os dois na canoa esperando uma leva se ajeitar, Lopes puxou conversa do jeito que os homens grandes puxavam com Martim: perguntando do rio como quem pergunta de um parente.
— Teu pai dizia que esse rio escuta — falou Lopes. — Que quem fala mentira em cima d'água, o rio cobra depois.
— Meu pai dizia muita coisa, seu Lopes. Ele falava com o rio mais do que falava com a gente.
— E o rio respondia?
— Respondia com peixe. — Martim riu. — Quando meu pai morreu, deu uma piracema fora de época. Minha mãe até hoje jura que foi despedida.
Lopes não riu. Balançou a cabeça devagar, como quem confere uma conta e acha a soma certa.
— A tua mãe entende das coisas. — E depois, sem mudar o tom, como quem ainda fala de peixe: — Teu primo do lado de lá, o que serve no quartel de Concepción. Tem vindo?
Martim demorou uma braçada de silêncio.
— Veio no São João.
— Falou alguma coisa?
— Falou de festa, seu Lopes.
— Sei. — Lopes cuspiu fino na água. — E da outra coisa, falou?
A outra coisa. Fazia meses que a outra coisa vinha crescendo nas conversas do passo como cresce nuvem de outubro: no canto do olho, no fim das frases. O Presidente López — o de lá, o Solano — andava juntando soldado como quem junta boiada, diziam os que desciam de Assunção. Vinte mil, quarenta mil, sessenta mil, o número aumentava a cada canoa. E um navio brasileiro tinha sido tomado no rio Paraguai, dizia um jornal de dois meses atrás que o mascate Elias trouxera dobrado em quatro, e havia nomes novos que os homens falavam baixo: Mato Grosso. Coimbra. Guerra.
— Falou que soldado agora não ganha dispensa nem pra colheita — disse Martim, olhando a água. — Falou que o quartel não dorme. E falou... — ele hesitou, porque repetir certas frases parecia ajudá-las a acontecer — ...falou que quando o rio Paraguai fechar, o Apa vira porta.
Lopes ficou um tempo sem dizer nada. Do outro lado, os peões tocavam a última leva barranco acima, e o sol começava a cair atrás do Paraguai, tingindo de cobre a água mansa demais.
— Porta — repetiu o fazendeiro, por fim. — Porta se abre pros dois lados, guri. É por isso que porta se tranca.
— O senhor acha que vem?
Era a pergunta que ninguém fazia inteira no passo, e Martim se arrependeu no meio dela. Mas Lopes respondeu como respondia tudo: devagar, e de frente.
— Eu acho que homem que junta sessenta mil soldados não juntou pra desfile. — Ele se levantou na canoa, firme como se estivesse em chão de tijolo, e olhou o rio inteiro, de uma curva a outra, um olhar comprido de dono ou de despedida. — Eu tenho mulher e filho pra dentro desses campos, Martim. Fazenda, cria, gente que depende. Se essa porta abrir... — a frase parou; ele a fechou de outro jeito: — Deus há de que não abra.
Naquela noite, do lado de lá, houve festa — casamento de gente do Ferreira. O chamamé atravessou o rio até tarde, sanfona e guitarra e aquele canto que chora e dança ao mesmo tempo, e Martim ficou no barranco escutando, como escutava desde criança, a música que não precisava de canoa para atravessar.
Doña Ramona veio se sentar ao lado dele com o cachimbo apagado — só o hábito de mordê-lo, herança do avô.
— O Lopes te pagou bom?
— Pagou justo.
— Que foi que ele te disse, que tu voltou com essa cara?
Martim pensou em mentir. Mas mentira em cima d'água o rio cobra depois, e o barranco era quase água.
— Que porta se abre pros dois lados.
A mãe mordeu o cachimbo, escutando a música.
— Tua avó dizia — falou ela, depois de um tempo, no guarani da verdade — que o Apa é um rio novo. Rio criança. E que criança não sabe guardar segredo: tudo que vai acontecer na fronteira, o Apa conta antes, pra quem sabe escutar.
— E o que ele tá contando, mãe?
Doña Ramona não respondeu logo. Do lado de lá, a música parou de repente, no meio de um compasso — e por um instante comprido demais ficou só o silêncio, um silêncio de mato inteiro prendendo o fôlego, até a sanfona retomar, meio tom mais baixo, como quem se desculpa.
— Escuta — disse a mãe.
Martim escutou. E pela primeira vez em dezesseis anos de barranco, de canoa, de duas margens e duas línguas, o rio que dividia em silêncio lhe pareceu não um rio, mas um pavio.
Ao sul, muito além da curva, onde o Apa vai morrer no rio Paraguai, o céu de outubro armava trovoada. Trovoada seca, dessas que não trazem chuva.
Só fogo.
Nota do Arquivo VivoMartim, Doña Ramona e os diálogos deste capítulo são dramatização. São históricos: José Francisco Lopes (1811–1868), fazendeiro da região do Jardim, futuro Guia da Laguna; a tomada do vapor Marquês de Olinda (nov/1864) e a mobilização paraguaia que antecedeu a invasão de Mato Grosso; o passo do Apa como fronteira viva de comércio e família entre Bela Vista e Bella Vista Norte.
Capítulo II — O homem do Jardim · em quinze dias, aqui.